Rio de Janeiro(RJ), 19/11/2024 – Fotografia oficial final do G20. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Tensões geopolíticas, fragilidade financeira e perda de coordenação internacional ampliam os riscos para a economia global em 2026
Embora a incerteza seja estrutural às economias monetárias, como afirmava Keynes, o mundo vive atualmente um nível excepcionalmente elevado de incerteza, reconhecido nas variadas análises internacionais. Não à toa que o FMI, a OCDE, a ONU em seus relatórios sobre a economia mundial de 2025 e de previsões para 2026 afirmam que o desafio atual é garantir crescimento econômico sustentável em um cenário de intensa incerteza, que decorre da combinação de fatores econômicos, financeiros e, em especial, geopolíticos.

Em 2025, os EUA, como centro do sistema financeiro e geopolítico global, já enfrentavam uma crise dupla. No plano externo, há perda de liderança internacional, questionamento do papel do dólar, efeitos adversos de sanções e instabilidade no comércio global. Internamente, o país vive o esgarçamento do tecido social, marcada pela concentração de renda, empobrecimento da classe média, alto custo de vida, endividamento das famílias (só em cartão de crédito atingiu um nível recorde de US$ 1,23 trilhão em 2025, maior saldo registrado desde 1999) e insegurança alimentar que atinge mais de 50 milhões de pessoas, agravada por conflitos ligados à política migratória.

Em 2025, a condução da política dos EUA — com ataques a instituições internacionais, forte volatilidade tarifária, disputas fiscais, cortes de gastos sociais e benefícios aos mais ricos — aumentou a instabilidade. Sem mencionar, no maior shutdown da história do país, com risco de repetição em 2026. Apesar disso, a economia norte-americana cresceu acima de 2% em 2025. Importante lembrar que as eleições de 2026 podem alterar ainda mais o quadro político interno, com expectativa de perda da maioria Republicana na Câmara dos Representantes.

A EU busca se recolocar no cenário econômico mundial, apesar do processo de desindustrialização, crise energética e defasagem tecnológica com aumento dos gastos em defesa e flexibilização da austeridade fiscal, apostando que esses investimentos impulsionem seu desenvolvimento tecnológico e militar. A China, por sua vez, manteve-se como grande polo exportador, alcançando um superávit comercial de US$ 1 trilhão, compensando tarifas impostas pelos EUA e a fraca demanda interna. No plano global, o contexto é marcado por juros elevados, endividamento público crônico, rápidas transformações tecnológicas e intensificação de conflitos militares, resultando em aumento generalizado do custo de vida.

Em termos de conflitos mundiais temos a escalada da guerra Rússia x Ucrânia, na Faixa de Gaza com a Cisjordânia e Israel e Líbano, na Síria e Iêmen. O continente africano segue marcado por guerra civil e conflitos armados com milícias e forças regionais, como no Sudão, no Congo, Sahel (Mali, Burkina Faso e Níger) e Somália. Na Ásia temos Myanmar e a manutenção da guerra civil, Caxemira e Afeganistão em intensa crise humanitária. Nas Américas temos o Haiti e a recente invasão dos EUA a Venezuela. O perigo em 2026 não é um “novo conflito”, mas a escalada e interligação dos existentes, com choques em energia, comércio e finanças.

O relatório WESP 2026, lançado pela ONU, alerta que a economia mundial caminha para um período prolongado de crescimento mais lento do que no pré-pandemia. O crescimento global deverá ser de 2,7% em 2026, abaixo de 2025 (2,8%) e da média pré-pandemia (3,2%), refletindo abrandamento do comércio internacional, tensões geopolíticas, incerteza política e restrições fiscais. Previsão intermediária a projeção do Banco Mundial de 2,4% (junho de 2025) e do FMI de 3,1%, em outubro de 2025. As novas projeções do FMI devem sair em 19 de janeiro, e devem inserir os impactos dos últimos acontecimentos mundiais, como o caso da Venezuela e a crise social que explodiu nos EUA.

Apesar da queda da inflação em muitas economias, o alto custo de vida continua a pressionar famílias e a agravar as desigualdades. Persistem riscos elevados de choques de oferta, ligados a conflitos, clima extremo, fragmentação comercial e tensões geopolíticas. O investimento segue contido e o espaço fiscal limitado, sobretudo em países em desenvolvimento. Regionalmente, Ásia Oriental e do Sul mantêm crescimento relativamente sólido, embora em desaceleração na China e na Índia. A Europa enfrenta crescimento moderado, afetado por tarifas, geopolítica e desafios estruturais. A Ásia Ocidental deve acelerar, impulsionada pelo petróleo, mas permanece vulnerável a tensões geopolíticas.

Já o Boletim de Perspectiva Econômica da OCDE (dezembro de 2025) projeta a manutenção do crescimento do PIB global em 3,3% em 2026. A inflação nos países da OCDE deverá diminuir ainda mais, de 5,4% em 2024 para 3,0% em 2026. As previsões de crescimento variam significativamente entre as regiões. O crescimento do PIB nos EUA deve desacelerar para 2,4% em 2026. Na zona do euro, se prevê a recuperação da renda real das famílias, os mercados de trabalho aquecidos e as reduções nas taxas de juros, de 0,8% em 2024 para 1,5% em 2026. No Japão, prevê-se uma queda entre 2025 e 2026 de 1,5% para 0,6% em 2026. E a China deve desacelerar, de 4,7% em 2025 e 4,4% em 2026. Para o Brasil o relatório prevê uma queda de crescimento do PIB de 2,3% para 1,9% em 2026. O relatório destaca a incerteza persistente. Ressalta que uma intensificação dos conflitos em curso no Oriente Médio pode perturbar os mercados de energia e afetar a confiança e o crescimento. O aumento das tensões comerciais pode prejudicar o crescimento do comércio.

Do ponto de vista financeiro, o mercado observa a sobrevalorização de ativos, especialmente no mercado acionário dos EUA, com ênfase em empresas ligadas à IA, com concentração em um pequeno grupo de empresas de tecnologia (“Magnificent 7”). Ademais, o mercado vem operando com níveis recordes de alavancagem, com a expansão do crédito nos EUA. Identifica-se também pressões nos mercados de títulos públicos e o aumento da relevância de instituições financeiras não bancárias, que podem amplificar choques.

Em 3 de janeiro de 2026, Donald Trump ordenou, sem autorização expressa do Congresso Americano, a invasão e o sequestro do presidente da Venezuela. Ele propõe a retomada da exploração de petróleo pelas empresas estadunidenses na Venezuela, que, contudo, já demonstraram desinteresse no investimento. No que se refere às questões econômicas, excluindo as geopolíticas, o presidente olha para o potencial geológico esquecendo da viabilidade econômica ao defender o controle da Venezuela e a anexação da Groenlândia como estratégias de ganho econômico para os EUA, ou essa seria apenas uma desculpa a ser usada como justificativa para outros fins. Embora a Venezuela possua grandes reservas de petróleo, sua exploração é cara, arriscada e depende de investimentos massivos, estabilidade política e segurança jurídica — fatores que afastam o setor privado americano. Já a Groenlândia, apesar de ter minerais estratégicos, enfrenta obstáculos como clima extremo, falta de infraestrutura, altos custos, oposição local e reservas limitadas em comparação a outros países. Em ambos os casos, o presidente superestima os benefícios econômicos e finge não ver os riscos, os custos e as consequências diplomáticas e estratégicas das iniciativas. Contudo, suas declarações e ações elevam o cenário de incerteza na economia mundial.

A economia mundial entra em 2026 marcada por pressões múltiplas e interligadas, a elevada incerteza deixa de ser apenas conjuntural e passa a assumir caráter estrutural. A combinação de desaceleração do crescimento, persistência do alto custo de vida, endividamento elevado, fragilidade financeira e intensificação dos conflitos geopolíticos limita o espaço de manobra das políticas econômicas e amplia os riscos de choques sistêmicos. Ao mesmo tempo, a atuação das principais potências, em especial, da UE na intensificação do conflito com a Ucrânia e de sanções contra a Rússia e dos EUA com seu Corolário Trump da Doutrina Monroe ou guerras tarifárias ou ainda ataque as instituições multilaterais, por exemplo, fragiliza a governança global e aprofunda a instabilidade nos mercados de energia, comércio e finanças. O desafio central para os próximos anos não se restringe à retomada do crescimento, mas envolve a reconstrução de mecanismos de cooperação internacional, a redução das desigualdades e o fortalecimento das instituições econômicas e políticas, sob pena de a economia global permanecer aprisionada em um ciclo prolongado de baixo dinamismo, alta volatilidade e crescente insegurança social. Sem citar na possibilidade do estouro de uma bolha financeira que cresce na Bolsa dos EUA.

Fonte: Observatório Internacional do Século XXI


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