A maioria dos parlamentares gaúchos segue a cartilha das bancadas da extrema direita na defesa de uma agenda que combina interesse próprio, negacionismo e alinhamento ao bolsonarismo institucionalizado
O comportamento da bancada gaúcha nas últimas votações polêmicas do Congresso Nacional confirma uma tendência de coesão e radicalização à direita. Da PEC da Blindagem, a qual reduz mecanismos de controle sobre os parlamentares, ao PL do Licenciamento Ambiental, que flexibiliza regras ambientais, passando pela derrubada do decreto do IOF e pela urgência do PL da Anistia a golpistas de 8 de janeiro, deputados de partidos como o PL, PP, Republicanos, MDB, Podemos, PSD e PSDB votaram em bloco em defesa de uma agenda que combina autoproteção institucional, negacionismo regulatório e alinhamento ao bolsonarismo.

Essa é a avaliação do professor Nilton Sainz, mestre em Ciência Política e professor da Universidade Federal do Paraná. Em entrevista ao Extra Classe, ele aponta que “os gaúchos reproduzem, com impressionante fidelidade, a lógica nacional das bancadas de direita e extrema direita. Existe um padrão de coesão ideológica e disciplinar que mostra um bolsonarismo institucionalizado, especialmente em temas de proteção política e enfraquecimento de controles democráticos”.

PEC da Blindagem: a autoproteção como projeto político

A votação da PEC 3/2024, conhecida como PEC da Blindagem, também chamada de PEC da Impunidade, foi emblemática. A proposta limita o alcance de decisões judiciais contra parlamentares e autoridades, dificultando investigações e punições. Entre os deputados e deputadas do Rio Grande do Sul, 17 votaram a favor da PEC, incluindo todos os do PP, PL, MDB, Cidadania, PSD, Republicanos, União Brasil e Podemos.

Segundo Sainz, a medida “é um mecanismo de fragilização da accountability – responsabilidade e transparência na prestação de contas – e de normalização da impunidade política”. Para ele, o comportamento da direita gaúcha “expressa uma agenda de autoproteção corporativa, que só interessa aos próprios parlamentares e não à população”.

A repercussão negativa foi imediata e parte dos deputados tentou se retratar nas redes sociais, alegando “erro de votação”. “Isso mostra que eles sentiram o custo político. Quando o cerco fecha, eles recuam, mas o movimento revela o quanto estão dispostos a avançar sobre o Estado democrático”, analisa o cientista político.

Quem são os gaúchos que votam contra o povo, a favor dos ricos, contra a natureza e pela impunidade

Parlamentares do Rio Grande do Sul, como Zucco e van Hattem, lideraram o motim que paralisou a Câmara no dia 5 de agosto para obter alguma medida pró-impunidade

Foto: Deputado Paulo Bilynskyj/ Reprodução/ X

Licenciamento Ambiental: o lobby do agronegócio

Na votação do PL do Licenciamento Ambiental, o padrão se repetiu. O projeto, criticado por enfraquecer o poder de órgãos ambientais e abrir brechas para grandes empreendimentos sem estudos de impacto, recebeu apoio maciço da direita gaúcha. Segundo levantamento feito pelo Extra Classe com base nas votações registradas, 21 dos 31 deputados do RS votaram a favor da flexibilização, uma adesão de 68% da bancada estadual.

Entre os defensores do texto, estão Afonso Hamm (PP), Alceu Moreira (MDB), Bibo Nunes (PL), Covatti Filho (PP), Giovani Cherini (PL), Danrlei de Deus (PSD) e Pedro Westphalen (PP), todos ligados a setores do agronegócio e das federações empresariais.

“O PL do Licenciamento é uma vitória simbólica das elites rurais e industriais do estado”, afirma Sainz. “Mostra que essa direita não é apenas ideológica, mas também econômica. Ela defende os interesses do agro e das federações empresariais. É uma direita que se organiza tanto por identidade bolsonarista quanto por afinidade de classe.”

PEC da Anistia: negacionismo e erosão democrática

A polêmica votação da urgência do PL da Anistia para os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 reforçou o padrão de comportamento. Vinte dos 31 deputados gaúchos (68%) votaram a favor da urgência, ou seja, pela aceleração da tramitação do projeto que, na prática, beneficia bolsonaristas acusados de depredar as sedes dos Três Poderes.

Os que votaram “sim” são: Afonso Hamm, Alceu Moreira, Any Ortiz, Bibo Nunes, Covatti Filho, Daniel Trzeciak, Danrlei, Franciane Bayer, Giovani Cherini, Lucas Redecker, Luiz Carlos Busato, Marcel van Hattem, Marcelo Moraes, Márcio Biolchi, Mauricio Marcon, Osmar Terra, Pedro Westphalen, Ronaldo Nogueira, Sanderson e Zucco.

“Essa votação mostra a face mais autoritária da extrema direita”, declara Sainz. “A anistia é um revisionismo autoritário. É a tentativa de apagar os crimes de quem tentou destruir a democracia. É negacionismo político e jurídico, um ataque direto à responsabilização democrática.”

IOF: o voto dos gaúchos contra o governo e contra os trabalhadores

Quem são os gaúchos que votam contra o povo, a favor dos ricos, contra a natureza e pela impunidade

Decreto do IOF: 23 dos 31 deputados gaúchos votaram contra o governo Lula, ajudando a derrubar a medida

Foto: Bruno Spada/ Câmara dos Deputados

No caso da derrubada do decreto do IOF, o qual aumentava a arrecadação para programas sociais e investimentos públicos, o comportamento foi idêntico. 23 dos 31 deputados gaúchos votaram contra o governo Lula, ajudando a derrubar a medida. “É uma votação que revela a mesma coesão da direita e da extrema direita em defesa dos setores mais ricos, contrários à redistribuição fiscal e à política social”, afirma Sainz.

Conforme dados da Câmara Federal, votaram pela derrubada do decreto nomes como Afonso Hamm, Afonso Motta, Alceu Moreira, Any Ortiz, Bibo Nunes, Covatti Filho, Daniel Trzeciak, Danrlei, Franciane Bayer, Giovani Cherini, Heitor Schuch, Lucas Redecker, Luiz Carlos Busato, Marcel van Hattem, Marcelo Moraes, Márcio Biolchi, Mauricio Marcon, Osmar Terra, Pedro Westphalen, Pompeo de Mattos, Ronaldo Nogueira, Sanderson e Zucco.

O contexto nacional: o poder do Congresso e o enfraquecimento do Executivo

Para o analista político Marcos Verlaine, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), as votações da bancada gaúcha refletem não apenas a força da direita, mas também um novo equilíbrio de poder no país.

“O Congresso hoje é dominado por forças conservadoras, que, além de ideologicamente alinhadas ao bolsonarismo, estão materialmente empoderadas pelo controle do orçamento”, explica. “Isso cria uma lógica em que os parlamentares votam contra o governo mesmo em pautas que beneficiam a população, porque o cálculo político passou a ser quanto de recurso e influência cada um consegue concentrar.”

Verlaine observa que o comportamento da direita gaúcha é um microcosmo do que ocorre nacionalmente. “O Parlamento se tornou o epicentro do poder político, enquanto o Executivo tem dificuldade em construir maioria estável. A base fisiológica e a extrema direita, juntas, impõem uma agenda que mistura autoritarismo, clientelismo e desmonte do Estado.”

Ele acrescenta que essa nova configuração gera risco institucional: “Quando o Congresso atua como poder soberano, sem contrapesos, o equilíbrio democrático se perde. As votações da PEC da Blindagem e da Anistia são sinais de um Legislativo que busca autonomia sem responsabilidade”.

Senado Federal tem funcionado como escudo

Quem são os gaúchos que votam contra o povo, a favor dos ricos, contra a natureza e pela impunidade

O cientista político Nilton Sainz identifica o fenômeno como um processo de “erosão democrática difusa”: “Não é um golpe clássico, é um desgaste lento”

Foto: Acervo Pessoal

Para Marcos, a correlação de forças no Senado tende a ser mais equilibrada do que na Câmara, especialmente frente às chamadas “pautas bolsonaristas”. Ele avalia que o Senado tem funcionado como “uma espécie de escudo contra o avanço da maluquice dessa turma bolsonarista”, barrando projetos como a PEC da Blindagem e as tentativas de anistia a golpistas do 8 de janeiro.

O analista lembra que, em 2026, estarão em jogo 54 cadeiras da casa, o que torna o comportamento dos senadores mais cauteloso: “O senador que ousar votar a favor dessas pautas terá muita dificuldade para explicar isso ao eleitor”, resume. Essa postura mais ponderada, segundo ele, deve se manter até o pleito, quando a disputa entre direita e esquerda no Rio Grande será um retrato das tensões nacionais.

O golpe lento praticado pelo bolsonarismo institucionalizado

Nilton Sainz sintetiza o quadro como a consolidação de um bolsonarismo institucionalizado no Rio Grande do Sul. “Os deputados mostram disciplina partidária, alinhamento ideológico e coesão com as diretrizes nacionais das bancadas bolsonaristas. É um fenômeno de normalização da extrema direita dentro das instituições”, observa.

O cientista político identifica, ainda, um processo de “erosão democrática difusa”: “Não é um golpe clássico, é um desgaste lento. Quando se enfraquece o controle judicial, se afrouxa o licenciamento ambiental e se anistiam golpistas, está se corroendo o Estado democrático por dentro”.

Apesar da coesão, parte da bancada demonstra receio do impacto eleitoral. Após a repercussão negativa da PEC da Blindagem, vários deputados bolsonaristas, inclusive do PL e do PP, fizeram publicações tentando se distanciar da proposta. “Isso mostra que eles medem o custo político”, analisa Sainz. “Há uma base radical que cobra fidelidade, mas há também o eleitor conservador tradicional, que se incomoda com a impunidade aberta e com o autoritarismo explícito.”

Gaúchos são um espelho do Congresso Nacional

O comportamento da bancada gaúcha é, de acordo com Sainz, “um espelho fiel do Congresso Nacional”. No plano federal, as mesmas votações tiveram apoio de cerca de 70% dos parlamentares do PL, PP, Republicanos, PSD e MDB, com oposição integral das bancadas do PT, PSOL, PCdoB, PDT e Rede.

“O Rio Grande do Sul reproduz esse padrão com poucas variações. É uma direita organizada, disciplinada e ideologicamente coesa, que opera sob uma identidade bolsonarista e sob interesses econômicos do agronegócio e do empresariado. O problema é que, nessa rota, o custo é a democracia”, conclui Sainz.

Quem são os gaúchos que votam contra o povo, a favor dos ricos, contra a natureza e pela impunidade

Os deputados gaúchos reproduzem o comportamento nacional com poucas variações. É uma direita organizada, disciplinada e ideologicamente. coesa,

Foto: Bruno Peres/Agência brasil

Fonte: Extra Classe


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