A intolerância quase impediu a realização da palestra do filósofo e escritor Frei Betto em Caxias do Sul. Mas, ao contrário do que alguns esperavam, o encontro sobre Fomes do Brasil e Esperanças de Futuro foi realizado no auditório do UCS Teatro, para centenas de pessoas que compareceram, apesar do frio intenso da noite de 13 de junho.

Aos 76 anos, autor de 73 livros (o 74º vai estar disponível em breve), Frei Betto esteve ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeiro mandato e ajudou na implementação do Fome Zero.  E foram a fome e a desigualdade social no Brasil os principais nortes de sua fala. Abordou, ainda a questão da fé e do amor ao próximo, que, segundo o jornalista, deveriam ser os pilares de vida daqueles que creem em Cristo.

Citando o escritor cubano Onélio Jorge Cardoso, que diz: “O ser humano tem duas grandes fomes: a de pão e a da beleza. A primeira é saciável, a segunda é infindável”, Frei Betto explicou: Na verdade, nós precisamos do pão nosso – que é a fome do pão -, mas precisamos também do Pai Nosso, que é do sentido que nós atribuímos à existência. E essa necessidade é uma fome insaciável do sentido da vida”.

O teólogo lembrou algumas passagens bíblicas, em especial o Evangelho de Marcos, onde Jesus ensina a partilha. E é assim que, para ele, se resolveria o problema da fome. “Segundo a ONU, seriam necessários 500 bilhões de dólares para acabar com a fome em todo o mundo. Só os Estados Unidos irão gastar, neste ano, 700 bilhões de dólares em armamento bélico”, denunciou.

Frei Betto defende que não há, tampouco, escassez de alimentos. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) o planeta tem 8 bilhões de habitantes e 1 bilhão de pessoas passam fome diariamente. No entanto, são produzidos alimentos para suprir 12 bilhões de pessoas. “Não falta comida. Falta justiça social.”

 

Desafios

“Estamos vivendo, no Brasil, uma situação de muitas carências, tanto no ponto de vista material – pelos dados sociais que aparecem e pela maneira que o governo anterior procedeu na pandemia, o descaso com a natureza e os indígenas, a ideologia que fomentou o racismo, o monogenismo, a xenofobia. Ao mesmo tempo, temos o fato de o governo atual ter ganho por uma margem pequena de votos, além de um congresso e banco central com sua política voltada para (atender) uma minoria da população brasileira. São fatores que estão impedindo a implantação de programas sociais.” Para Frei Betto, um governo só se sustenta com apoio do congresso e da população.  E o apoio da população pode inibir a ação (contrária) do congresso.

“A história mostrou que políticas sociais são importantes, porque quem está na carência precisa muito delas, merece e tem direito. Porém, somente elas não mudam a cabeça das pessoas. Eu tenho fome de educação política para o povo”. O jornalista alerta para o avanço do radicalismo e da extrema direita no Brasil e no mundo. Considera que não é um movimento superficial, pois estamos vivendo o renascimento do nazismo. Por estes motivos, Frei Betto acredita ser fundamental a educação política no país, que deve ser complementada com educação ética e espiritual.

Sobre as novas formas de comunicação, o palestrante, que também é jornalista, alertou: “As redes digitais vieram para ficar e está na hora de aprendermos a usar as redes na educação de jovens e velhos. Chamo de redes digitais, porque não são sociais, não promovem a socialização.” Para Frei Betto, há a necessidade de regulação da internet para redes confiáveis de informação para formar pessoas. Frei Betto defende, ainda, que as grandes plataformas deveriam ter controle público, mas hoje elas são privadas e acabam propagando ideias e informações erradas ou distorcidas. “Sou totalmente a favor da liberdade de expressão, mas quando há ofensas ou difamações, o autor deve ser penalizado pelos seus atos”, afirmou.

O evento foi promovido pelo Fórum das Entidades e Movimentos Sociais composto por dezenas de organizações de Caxias do Sul, Farroupilha, Bento Gonçalves e Ipê, entre elas o Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e Região. O objetivo do Fórum é trazer palestrantes para debater temas nacionais e promover reflexões.

Observação: O evento estava inicialmente programado para o Colégio São José, mas foi cancelado pela instituição e transferido pelos organizadores para a Universidade de Caxias do Sul (UCS). Frei Betto agradeceu publicamente ao reitor UCS, Gelson Rech, pela acolhida de sua palestra.

 

Fotos: 1 e 6 – Gabriel Lain  / 2, 4  e 5  – Rose Brogliato / 3 – Gilmar Gomes

 


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